Quando me propuseram este tema para este trabalho me vieram à mente outras perguntas e entre elas, a seguinte: ?Cadê o índio que estava aqui?
Esta pergunta me fez lembrar de uma brincadeira infantil que, apesar de um pouco linear, pode nos ajudar a compreender o que aconteceu com a Educação no Brasil.
A brincadeira a que me refiro começava com um toucinho e um gato e acabava da seguinte forma: ?Cadê o padre?Tá rezando missa? Cadê a missa?Tá no altar?.
Nesta História real o ?padre? começa um pouco antes.
Se iniciarmos nossa cantilena perguntando: ?Cadê o índio que estava aqui? a resposta pode ser:
_ O padre o transformou.
_ Cadê o padre?
_ Ficou mais de duzentos anos rezando missa; catequizando índios e pagãos através da alfabetização; fazendo outros padres; e divulgando uma educação acadêmica e abstrata.
_ E depois dos duzentos anos, onde foi parar o padre?
_ Através da figura de um Marquês foi desbancado pelas idéias do iluminismo que assolavam
o mundo, seus bens confiscados e suas escolas fechadas.
As idéias iluministas objetivavam transferir o poder, passando da igreja para o Estado. Porém
o Marquês não visou uma reforma brasileira e sim uma reforma educacional para a Metrópole (Portugal) e como não houvesse interesse em equipar a colônia com um sistema educacional eficiente, a suposta reforma foi um fracasso.
Desastre total: sem padres e sem escolas.
Mais cem anos com a chegada da Corte Portuguesa ao nosso país a escola e o sistema educacional entram em voga novamente, só que agora com a intenção de atender às necessidades da nobreza.
Reconstrói-se a academização; fundam-se escolas técnicas superiores (principalmente a academia militar); aparece a primeira escola vocacional; surge a primeira imprensa; e organiza-se a primeira biblioteca. Tudo isto com Objetivo certo: a elitização do ensino. Todos os esforços para a construção da escola gratuita foram em vão, não existiam verbas para isto pois tudo o que se destinava a educação estava sendo aplicado à educação elitária e acadêmica dos nobres.
Em que época? Pasmem: na época da chamada ?Independência do Brasil?, mas que na realidade caracterizou-se por ser a independência de alguns.
A função da escola não era mais a de engrossar as fileira de fiéis que seguiam os ensinamentos do ?padre? , mas sim a de atender os interesses de uma elite que ficava cada vez mais poderosa.
Proclamada a ?Independência? e sem condições de uma estrutura independente, o império descentralizou a direção e a organização das escolas, o que resultou em várias aberturas
e inúmeros fechamentos de escolas. O abandono, novamente foi geral:
_ Cadê as escolas que estavam aqui?
_ Só sobrou a D. Pedro II, escola de ensino médio, modelar e elitária.
_ Cadê as instalações que estavam aqui?
_ Cadê as verbas? E os alunos? Cadê os professores?
O estado não deu conta. Nem tentando dividir as responsabilidades entre a federação e as províncias.
Somente 360 anos depois do descobrimento de nossa cultura indígena, precedido da invasão portuguesa é que o sistema educacional brasileiro é aquecido novamente.
_ Sabem quem apareceu?
_ O padre que junto com várias ordens religiosas criam muitas escolas secundárias para rapazes; e protestantes que criam escolas mistas.
O Estado não conseguiu se sobrepor à igreja e o ensino acadêmico, elitizado e abstrato volta a reinar como instrumento de doutrinação.
Com a República vêm junto uma enxurrada de reformas e dentre elas aquela desejada pêlos positivistas da época: a introdução do estudo de ciências na escola primária e secundária, para contrapor o ensino escolástico das escolas religiosas.
É na década de 30 e 40 que surgem as primeiras preocupações e chances educacionais reais para as camadas populacionais mais amplas, porém o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova que mobilizou a educação nacional na época, não contava com a participação direta desta camada da população na conquista destas chances.
Este foi um período profícuo no sentido administrativo. Foi criado o Ministério da Educação; fundada a primeira universidade brasileira; a constituição de 1937 prevê a responsabilidade do Estado na educação de crianças e adolescentes e a participação de indústrias e sindicatos na educação e formação profissional dos empregados.
Este início de discução educacional nas décadas de 30 e 40 continuam sendo ampliada nos próximos 20 anos, quando a população passa a desenvolver consciência, participa das reinvidicações, luta pêlos seus direitos. A Alfabetização agora não tem mais a intenção de doutrinação religiosa e passa a ser vista e realizada como instrumento de emancipação da maioria da população brasileira.
A discussão educacional foi intensa e finalmente em 1961 culminou com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases, que embora incompleta, representava o resultado de muita discussão e possibilitava ao povo se opor e a manifestar sua oposição. A preocupação da lei não era científica e sim política, e continuava desvinculada da realidade e do mundo do trabalho.
Nos discursos políticos a Educação passa a ter importância; aparece o incentivo à pesquisa, mas mesmo assim o distanciamento da realidade ainda existe. Que marca intensa a história deixa! Como é difícil livrar-se do academicismo, do idealizado, do abstrato e descontextualizado!
Os estudantes se mobilizam; os artistas produzem belas obras que retratam a presença da oposição, a democratização.
Mas a alegria dura pouco, embora Paulo Freire estivesse conseguindo um trabalho emancipador a revolução de 64 cala os artistas, os educadores, os jovens e o militarismo passa a reinar e muda o rumo da educação no país.
Agora não se tratava de portugueses invadindo a terra indígena, e nem de uma metrópole controlando uma colônia e sim de uma importação americana de modelos educacionais que objetivavam não mais formarem brasileiros e sim Americanos do Norte. Os ginásios Polivalentes, a estrutura universitária americana sendo implantada aqui, a lei 5.692 que visava modificações no ensino médio e primário, metodologias e tecnologias ?tecnicistas?... tudo isto resultou numa pergunta:
_ Cadê o Brasil que estava aqui?
_ Está se transformando em território do norte, embora encontre-se no sul.
_ Cadê os brasileiros que estavam aqui?
_ Todos em terras distantes, porque aqui não mais podiam falar, escrever, ensinar, compor, pintar, etc.
O militarismo interrompe o processo social que se encorpava e durante 20 anos permanecemos no silêncio obrigatório e no não crescimento educacional. Passamos 20 anos copiando, reproduzindo a nova metrópole, nos transformando no mais empobrecido ?império? que podíamos.
Aprendemos a sermos robôs, a plastificar tudo que encontramos, a promover um ensino em série, a fazer um controle de qualidade de alunos, a excluirmos aqueles que não se transformam segundo o esperado pelo modelo, etc.
Para contrabalançar este engessamento surgiram estudos progressistas que foram retomados após este negro período. Continuamos de onde havíamos parado. Administramos os prejuízos e começamos a lutar por uma escola brasileira, mais justa, gratuita, destinada para a população como um todo e que tivesse como objetivo principal ensinar o conteúdo históricamente construído. Uma escola que fazia oposição aos currículos propostos na época da república e aqueles propostos pelas escolas religiosas. Uma escola que acreditava na construção coletiva do conhecimento, na pesquisa, num conhecimento dinâmico que se atualizava e se transformava o tempo todo e sobre tudo uma escola que formava seres críticos e não reprodutivos.
Chegamos aos anos 90 com uma multiplicidade de sistemas educacionais. Temos presentes em nosso cotidiano a escola doutrinária, a escola nova, a tecnicista e a progressista.
Novamente um grande movimento educacional passa a ser realizado. Modifica-se a Lei de Diretrizes e Bases; cria-se parâmetros curriculares nacionais, a partir de uma discussão mais ampla e de contribuições de outros países; cria-se um modelo de avaliação das escolas; ousa-se mexer no sistema de avaliação; no modelo do vestibular.
Exagera-se por uma educação cidadã, desgastando um termo que permite a escola conceber uma nova forma de ação que não é só acadêmica mas também vivencial.
NESTA FORMA DE ENSINO É PERMITIDO VER QUE O ÍNDIO QUE ESTAVA AQUI FOI ARRANCADO DAQUI, E ESTÁ MAIS ALI DESADAPTADO E EM MUITOS CASOS INFELIZ. |
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