Educação Infantil
Com André Lapierre nos defrontamos com uma realidade constantemente observada por nós no decorrer de 25 anos de trabalho escolar: a criança pequena descobre o mundo com o corpo. Seu corpo fala e vive tudo ao seu redor. Aos poucos, ao descobrir a fala, seu corpo vai falando menos e dando maior espaço a linguagem oral. Com o passar dos anos, cada vez mais a criança verbaliza tudo e sua linguagem corporal vai ficando cada vez mais "travada", o que provoca um desequilíbrio que iremos sentir nitidamente na adolescência, onde surgem problemas de ordem afetiva e emocional, que geralmente interferem na escolaridade.
Todas as turmas trabalham uma vez por semana em um espaço amplo e limpo de qualquer objeto. O professor é um estimulador participativo do grupo onde joga e brinca livremente com as crianças e volta a ser criança. Sugere objetos relacionais como bola, arcos, cordas, tecidos, etc., explica as regras do jogo, onde são estabelecidos os limites e o objetivo principal: a expressão não verbal. A música é utilizada também como estimuladora, passando de clássica a folclórica ou samba, etc., levando o grupo ao movimento, à calma e ao relaxamento.
Este trabalho facilita as relações: da criança com o próprio corpo, com o corpo do outro e com o mundo, a aceitação das próprias limitações e o auto-conhecimento, o saber conviver com as emoções e sentimentos próprios e do outro, o domínio corporal, que permite um desprendimento do próprio corpo, dando espaço à criatividade, ao pensamento ligado à ação inteligente, ao desenvolvimento cognitivo e à compreensão do conhecimento.
Na alfabetização, a teoria de Emília Ferreiro nos coloca frente a uma nova realidade: o processo de alfabetização inicia-se a partir do momento em que a criança vê o mundo. Esta alfabetização começa com a leitura de mundo. Os estímulos visuais e orais que valorizam a escrita como forma de comunicação, são utilizados a partir da primeira infância.
A utilização constante da escrita vivenciada com a criança faz despertar o significado da leitura e escrita, tornando o processo de alfabetização um processo inteligente e não de memorização. Ao contrário do treinamento e da memorização, leva a descoberta, o que é a chave do prazer do conhecimento.
O papel do professor passa a ser de estimulador e não de centralizador do saber.
Esta proposta nos leva a uma postura integrada em todas as áreas. Não apresentamos figuras estereotipadas. A decoração das salas é feita somente pelos trabalhos das crianças. Quando utilizamos gravuras ou figuras, usamos material selecionado de pintores e desenhistas conhecidos em sua arte.
Os trabalhos escritos são desprovidos de treinamento e na maioria das vezes, espontâneos. Quando dirigidos, a direção é feita em forma de estímulo para alcançar um objetivo específico, e usando material alternativo, explorando a criatividade de cada um. Por isso, dificilmente os trabalhos são iguais, o tema pode ser o mesmo, mas o resultado final será sempre de um trabalho diferenciado. Na evolução do trabalho, a criança começa a diferenciar o desenho da escrita, começa a perceber que a escrita é um símbolo com um significado.
As crianças começam a perceber que os símbolos criados por eles, como a escrita, são reconhecidos pelos outros e só então são apresentados ao alfabeto, que fica exposto na sala. Então é explicado às crianças que foram criados símbolos universais para que todos se entendessem e que nós sabemos lê-los. Em seguida, ao reconhecerem seus nomes, trabalham a partir deles, fazendo associações com os outros nomes, reconhecem as letras dos nomes quando aparecem em rótulos, em revistas, em propagandas, etc.
Vão seguindo nesse processo contínuo da descoberta da leitura e da escrita e cada um, no seu próprio ritmo, vai sendo alfabetizado. O professor é um facilitador, um questionador e um estimulador constante do aprendizado e da socialização do grupo, onde a descoberta do outro, a descoberta de si mesmo, a descoberta do grupo nos leva a descoberta do mundo ao prazer do saber.